sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018





VACAS MAGRAS - II

No tempo das vacas magras, botava-se uma roupinha nova nas festas de agosto e no natal, mas não era todos os anos, era em ano de vaca boa. Muitas vezes a roupa não era de primeiras núpcias, já tinha sido estreada por outra e por sorte herdava-se.
Um ano tive a sorte de minha mãe encontrar num saldo umas botas de camurça beje, estilo cowboy, lindas de morrer, mas um número abaixo do meu pé de cinderela.
Pobre que é pobre, quando cai o pão é sempre com a mante
iga virada para baixo, mas eu não ia permitir tal coisa. Era para ter umas botas novas e mais nada.
Levei toda a tarde deitada na cama com as botas calçadas a ver se alargavam. Os pés latejaram até não sentir os dedos, mas eu nesse ano botei umas botas novas no dia de Pão por Deus. 
Quando se está disposto consegue-se ultrapassar todos os obstáculos, nem que seja à conta de uma unha encravada.


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018


Sou do tempo das vacas magras, não tão magras como as do tempo dos meus pais nem dos meus avós, que essas eram mesmo anoréticas, mas comparando as vacas da minha infância/adolescência/juventude com estas de agora (as que chamam de magras), estas, meus amigos, são seguramente obesas.
E deste tempo das vacas magrinhas há histórias de abrir o chão. Algumas posso contar, outras juro que não.

VACAS MAGRAS - I

No tempo das verdadeiras vacas magras não havia mariquices, fonices ou tratamentos caros para maleitas casuais.
Os remédios milagrosos eram os que estavam mais à mão, como por exemplo:
- tinhas dor de ouvidos enfiavam-te uma colher de sopa de azeite quente pelas orelhas abaixo e estava o caso arrematado;
- tinhas uma dor de dentes enfiavam-te um bochecho de aguardente na boca e tinhas duas hipóteses, ou aguentavas aquilo na boca e ficavas dormente do dente ou engolias e ficavas dormente da cabeça. Só tratavas o dente quando o buraco era tal que cabia o almoço inteiro;
- davas uma cabeçada na parede e crescia-te um galo na testa, besuntavam-te com banha de porco e apertavam-te o galo com uma faca. O galo não cantava, mas tu cantavas... e muito;
- só descobrias que eras cegueta quando já não vias um palmo à frente do nariz e quando finalmente usavas óculos ficavas embasbacado com o formato das folhas das árvores. Cada árvore tinha muitas folhas, não era um tronco com uma nuvem verde.
Mesmo assim sobreviveram, alguns, nem todos, ficaram os robustos e resistentes a qualquer bicho ruim, por conta do óleo de fígado de bacalhau.

Lembro-me, como se fosse hoje, do primeiro dia em que comi ketchup. Nesse dia os anjos tocaram harpa no céu. Molhar batatas, fritas pe...