quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

VACAS MAGRAS III


No tempo das vacas magras, uma lata de atum dava para alimentar uma família de 4 pessoas mais o gato.
Lembro-me do pirex quadrado (da Base) cheio de batatas cozidas aos quadrados grosseiros, untadas com o óleo da lata e polvilhadas com pisquinhos de atum. Comíamos felizes, que bom quando o jantar era atum. Enquanto jantávamos, o gato, à porta da cozinha, lambia a lata.
Talvez seja por isso que hoje em dia sou louca por latas de atum. Adoro comprar muitas (dezenas quando estão em promoção) para fazer torres de latas na dispensa.

Hoje em dia, quando o jantar é atum, a dose é uma lata por cabeça e o óleo vai pia abaixo.  
O maricas do gato não sabe lamber latas, só come ração.
Quando chegava a noitinha...

 ... o pai deitava-se na cama ao comprido e abria os braços como Cristo na cruz e eles voavam para cima da cama com a pressa de quem não quer perder o lugar, alinheirando-se um de cada lado. Então, o pai fechava os braços como uma galinha que fecha as asas para aconchegar os pintos e eles com as cabecinhas sobre o seu peito aguardavam em silêncio o que invariavelmente se seguia.
 O momento era solene, repetido mas sempre mágico. O quarto deixava de ter quatro paredes, transformando-se num cenário onde se desenrolava a história do Compadre Burro, Compadre Cão, Compadre Gato e Compadro Galo.
Ainda hoje se lembram dos lugares da história que iam criando e imaginando. Recordam-se das canadas de terra batida com erva azeda nas bermas e paredes de pedra onde os Compadres caminhavam rumo a um lugar seguro. A árvore enorme de ramos fortes onde o Compadre Galo subia para tentar descobrir o caminho a seguir. A lareira de pedra preta onde o Compadre Gato se escondeu para assustar os ladrões.
Num tom de voz arrastado, com o intuito de os adormecer, a história ia-se desenrolando como um fio de novelo. Eles já sabiam como começava e como acabava mas era como se a ouvissem pela primeira vez.
Chegado o fim inevitável, imploravam: - Mais uma vez...!!!!
E lá recomeçava a única história que lhes contou, talvez porque não sabia outra ou porque lhe solicitavam sempre aquela.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Foto de Lília Amorim.


por estas alturas do frio, do vento e da chuva, a noite caía cedo e ao sábado, depois do banho geral, vestiam pijamas de flanela e comiam pão com queijo de peso e bebiam leite com cacau, que fumegava dentro das tijelas redondas de louça grosseira e acastanhada com riscas verdes horizontais. De joelhos nas cadeiras da cozinha e cotovelos fincados na mesa iam comendo enquanto viam na RTP Açores algo a preto e branco.
Quando o sono chegava, iam para a cama e aguardavam o amasso que a mãe ou o pai lhes vinha dar, apertando e entalando os  cobertores contra os seus corpos e balançando-os de um lado para o outro. Depois  beijavam-lhes as faces e a testa com estralados e saborosos beijos.
Adormeciam com um largo sorriso nos lábios como se fossem as pessoas mais felizes e importantes à face da Terra. Naquele aconchego nada mais faltava. Isto era suficiente... um amor daqui até à Lua.

Lembro-me, como se fosse hoje, do primeiro dia em que comi ketchup. Nesse dia os anjos tocaram harpa no céu. Molhar batatas, fritas pe...