quinta-feira, 28 de novembro de 2019


Lembro-me, como se fosse hoje, do primeiro dia em que comi ketchup.
Nesse dia os anjos tocaram harpa no céu. Molhar batatas, fritas pela minha mãe, na geminha do ovo e de seguida passar a ponta do palito da batata pelo molho vermelho, assim só de raspão para não gastar muito, era algo que me fazia bastante feliz e reconfortada.
Também me recordo do dia em que minha mãe meteu o frasco na mesa e tivemos uma visita inesperada para jantar. Lembro-me perfeitamente de me sentir preocupada com a quantidade de ketchup que a visita poderia colocar no seu prato e quando pegou nele, inclinando-o de cabeça para baixo, eu fiz um gemido do qual ainda hoje me envergonho.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018





VACAS MAGRAS - II

No tempo das vacas magras, botava-se uma roupinha nova nas festas de agosto e no natal, mas não era todos os anos, era em ano de vaca boa. Muitas vezes a roupa não era de primeiras núpcias, já tinha sido estreada por outra e por sorte herdava-se.
Um ano tive a sorte de minha mãe encontrar num saldo umas botas de camurça beje, estilo cowboy, lindas de morrer, mas um número abaixo do meu pé de cinderela.
Pobre que é pobre, quando cai o pão é sempre com a mante
iga virada para baixo, mas eu não ia permitir tal coisa. Era para ter umas botas novas e mais nada.
Levei toda a tarde deitada na cama com as botas calçadas a ver se alargavam. Os pés latejaram até não sentir os dedos, mas eu nesse ano botei umas botas novas no dia de Pão por Deus. 
Quando se está disposto consegue-se ultrapassar todos os obstáculos, nem que seja à conta de uma unha encravada.


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018


Sou do tempo das vacas magras, não tão magras como as do tempo dos meus pais nem dos meus avós, que essas eram mesmo anoréticas, mas comparando as vacas da minha infância/adolescência/juventude com estas de agora (as que chamam de magras), estas, meus amigos, são seguramente obesas.
E deste tempo das vacas magrinhas há histórias de abrir o chão. Algumas posso contar, outras juro que não.

VACAS MAGRAS - I

No tempo das verdadeiras vacas magras não havia mariquices, fonices ou tratamentos caros para maleitas casuais.
Os remédios milagrosos eram os que estavam mais à mão, como por exemplo:
- tinhas dor de ouvidos enfiavam-te uma colher de sopa de azeite quente pelas orelhas abaixo e estava o caso arrematado;
- tinhas uma dor de dentes enfiavam-te um bochecho de aguardente na boca e tinhas duas hipóteses, ou aguentavas aquilo na boca e ficavas dormente do dente ou engolias e ficavas dormente da cabeça. Só tratavas o dente quando o buraco era tal que cabia o almoço inteiro;
- davas uma cabeçada na parede e crescia-te um galo na testa, besuntavam-te com banha de porco e apertavam-te o galo com uma faca. O galo não cantava, mas tu cantavas... e muito;
- só descobrias que eras cegueta quando já não vias um palmo à frente do nariz e quando finalmente usavas óculos ficavas embasbacado com o formato das folhas das árvores. Cada árvore tinha muitas folhas, não era um tronco com uma nuvem verde.
Mesmo assim sobreviveram, alguns, nem todos, ficaram os robustos e resistentes a qualquer bicho ruim, por conta do óleo de fígado de bacalhau.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

VACAS MAGRAS III


No tempo das vacas magras, uma lata de atum dava para alimentar uma família de 4 pessoas mais o gato.
Lembro-me do pirex quadrado (da Base) cheio de batatas cozidas aos quadrados grosseiros, untadas com o óleo da lata e polvilhadas com pisquinhos de atum. Comíamos felizes, que bom quando o jantar era atum. Enquanto jantávamos, o gato, à porta da cozinha, lambia a lata.
Talvez seja por isso que hoje em dia sou louca por latas de atum. Adoro comprar muitas (dezenas quando estão em promoção) para fazer torres de latas na dispensa.

Hoje em dia, quando o jantar é atum, a dose é uma lata por cabeça e o óleo vai pia abaixo.  
O maricas do gato não sabe lamber latas, só come ração.
Quando chegava a noitinha...

 ... o pai deitava-se na cama ao comprido e abria os braços como Cristo na cruz e eles voavam para cima da cama com a pressa de quem não quer perder o lugar, alinheirando-se um de cada lado. Então, o pai fechava os braços como uma galinha que fecha as asas para aconchegar os pintos e eles com as cabecinhas sobre o seu peito aguardavam em silêncio o que invariavelmente se seguia.
 O momento era solene, repetido mas sempre mágico. O quarto deixava de ter quatro paredes, transformando-se num cenário onde se desenrolava a história do Compadre Burro, Compadre Cão, Compadre Gato e Compadro Galo.
Ainda hoje se lembram dos lugares da história que iam criando e imaginando. Recordam-se das canadas de terra batida com erva azeda nas bermas e paredes de pedra onde os Compadres caminhavam rumo a um lugar seguro. A árvore enorme de ramos fortes onde o Compadre Galo subia para tentar descobrir o caminho a seguir. A lareira de pedra preta onde o Compadre Gato se escondeu para assustar os ladrões.
Num tom de voz arrastado, com o intuito de os adormecer, a história ia-se desenrolando como um fio de novelo. Eles já sabiam como começava e como acabava mas era como se a ouvissem pela primeira vez.
Chegado o fim inevitável, imploravam: - Mais uma vez...!!!!
E lá recomeçava a única história que lhes contou, talvez porque não sabia outra ou porque lhe solicitavam sempre aquela.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Foto de Lília Amorim.


por estas alturas do frio, do vento e da chuva, a noite caía cedo e ao sábado, depois do banho geral, vestiam pijamas de flanela e comiam pão com queijo de peso e bebiam leite com cacau, que fumegava dentro das tijelas redondas de louça grosseira e acastanhada com riscas verdes horizontais. De joelhos nas cadeiras da cozinha e cotovelos fincados na mesa iam comendo enquanto viam na RTP Açores algo a preto e branco.
Quando o sono chegava, iam para a cama e aguardavam o amasso que a mãe ou o pai lhes vinha dar, apertando e entalando os  cobertores contra os seus corpos e balançando-os de um lado para o outro. Depois  beijavam-lhes as faces e a testa com estralados e saborosos beijos.
Adormeciam com um largo sorriso nos lábios como se fossem as pessoas mais felizes e importantes à face da Terra. Naquele aconchego nada mais faltava. Isto era suficiente... um amor daqui até à Lua.

Lembro-me, como se fosse hoje, do primeiro dia em que comi ketchup. Nesse dia os anjos tocaram harpa no céu. Molhar batatas, fritas pe...