Sou do tempo das vacas magras, não tão magras como as do tempo
dos meus pais nem dos meus avós, que essas eram mesmo anoréticas, mas comparando
as vacas da minha infância/adolescência/juventude com estas de agora (as que
chamam de magras), estas, meus amigos, são seguramente obesas.
E deste tempo das vacas magrinhas há histórias de abrir o chão. Algumas posso
contar, outras juro que não.
VACAS MAGRAS - I
No tempo das verdadeiras vacas
magras não havia mariquices, fonices ou tratamentos caros para maleitas
casuais.
Os remédios milagrosos eram os que estavam mais à mão, como por exemplo:
- tinhas dor de ouvidos enfiavam-te uma colher de sopa de azeite quente pelas
orelhas abaixo e estava o caso arrematado;
- tinhas uma dor de dentes enfiavam-te um bochecho de aguardente na boca e
tinhas duas hipóteses, ou aguentavas aquilo na boca e ficavas dormente do dente
ou engolias e ficavas dormente da cabeça. Só tratavas o dente quando o buraco
era tal que cabia o almoço inteiro;
- davas uma cabeçada na parede e crescia-te um galo na testa, besuntavam-te com
banha de porco e apertavam-te o galo com uma faca. O galo não cantava, mas tu
cantavas... e muito;
- só descobrias que eras cegueta quando já não vias um palmo à frente do nariz
e quando finalmente usavas óculos ficavas embasbacado com o formato das folhas
das árvores. Cada árvore tinha muitas folhas, não era um tronco com uma nuvem
verde.
Mesmo assim sobreviveram, alguns, nem todos, ficaram os robustos e resistentes
a qualquer bicho ruim, por conta do óleo de fígado de bacalhau.